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“Podemos ser o que você é sem deixar de ser quem nós somos”

O estudante de produção cultural da UFBA, Victor Pataxó, faz uma reflexão sobre as cotas no Dia do Índio

“São nações escravizadas
E culturas assassinadas
É a voz que ecoa do tambor!
Chega junto, venha cá
Você também pode lutar
E aprender a respeitar”

 

O meu maior sonho e o sonho da minha família era poder terminar o ensino médio e entrar na universidade e mesmo com todas as dificuldades o sonho nos faz ser maior que os desafios. Muitos dos meus morreram, muita da minha história foi perdida e hoje estou aqui, dentro da universidade. Eu sou Victor Pataxó, e como já carrego em meu sobre nome, sou do povo pataxó, povo esse que durante um tempo foi dado como exterminado, não existente, mas que com muita luta conseguiu continuar vivo e hoje é um dos maiores povos do Brasil.

Sou estudante de produção cultural da UFBA, entrei na universidade através das vagas residuais para povos indígenas e quilombolas, vagas essas que fazem com que muitos indígenas, quilombolas, pretos e outros povos possam sonhar em ter uma graduação; ser professor, médico, advogado, comunicador e, assim, ajudar seu povo. São essas vagas que fazem também com que os povos possam se armar para defender suas terras. Vagas essas que meus antepassados derramaram sangue para que pudéssemos conquistar. E eu? Eu sou mais um peixe índio aprendendo falar língua de passarinho, que incomoda conquistando espaços para blindar meu povo de mais um massacre, sou mais um guerreiro que está aprendendo com o colonizador a como derrotá-lo, sou mais uma arma do meu povo sendo preparada.

E é por isso que não querem cotas, e é por isso que querem a universidade só pra elite. Eles querem que nós voltemos a ser escravizados, que nós voltemos a trabalhar com a mão de obra pesada e que paremos de ser pensadores e multiplicadores de ideias. “Podemos ser o que você é sem deixar de ser quem nós somos”. Seremos advogados, médicos e o que mais precisarmos ser, só não deixaremos de lutar e ser um povo unido que irá declarar guerra a quem finge nos amar, que irá seguir firme e resistente, pois nesses mais de 500 anos nunca deixamos ser.

E sobre o dia 19 de Abril? Todos os dias são dia de índio, todos os dias lutamos por espaços, por demarcação de terras, por respeito e para recuperar tudo que foi nos tirado desde sempre. É preciso desmistificar toda visão social e fazer com que parem de nos tratar como folclore! Nossas terras são dadas ao agronegócio, nossos direitos são tirados de forma agressiva e nossa extinção é cada vez mais possível.

Que nesse “dia do índio” cada um e cada uma possam procurar conhecer melhor, ajudar na luta pela demarcação das terras e pela sobrevivência dos povos originários. Nós resistimos desde a invasão dos portugueses. E vocês? Será que irão conseguir resistir em meio a tudo que pode acontecer no nosso país ?

Nossa luta é contínua e juntos podemos construir um país com mais direitos, com mais índios e pretos dentro da universidade, enfim, um país do tamanho dos nossos sonhos!

*Victor Pataxó é estudante de produção cultural da UFBA.

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