2 anos sem respostas: quem mandou matar Marielle Franco?

Diretora de Direitos Humanos da UNE, Maria Clara Delmonte escreve uma carta aberta a vereadora assassinada em 2018

Diretora de Direitos Humanos da UNE, Maria Clara Delmonte escreve uma carta aberta a vereadora assassinada em 2018

Eu tava lá, eu vi acontecer,
to cheio de ódio e saudade de você”
Djonga – Não sei rezar

À Marielle Franco

Escrevo essa carta faltando vinte e quatro horas para completar dois anos do dia que o céu da cidade chorou. Lembro bem do momento que recebi a notícia de seu assassinato: estava sem celular e fui informada pelo messenger do Facebook. Gelei, chorei, não acreditei. Só percebi que era verdade quando companheiros de confiança confirmaram estar no local do crime.

No dia seguinte, quando logo cedo subi escadas do metrô à caminho de seu velório que ocorria na Praça da Cinelândia, me deparei com um sentimento que jamais vou esquecer e que jamais vou deixar que eles esqueçam: você é gigante. Maior que você mesma, maior que nosso partido, maior que sua atuação legislativa, maior do que era você sozinha. “Eu sou porque nós somos” nunca fez tanto sentido como nesse momento.

Na UNE, estávamos organizando o maior encontro de mulheres estudantes da América Latina e te mataram duas semanas antes da data prevista para ele ocorrer. A partir daí tudo mudou. Transformamos o 8º EME da UNE em um potente espaço no qual centenas de mulheres de todo o Brasil, das mais diversas organizações políticas, ao mesmo tempo que exigiram justiça, se enchiam de força e inspiração e voltariam para suas cidades com a certeza de que eram sementes dessa luta. O mesmo aconteceu na Greve Internacional Feminista do 8 de Março do ano seguinte e em todas as lutas que encampamos de lá pra cá: não há um dia 14 sequer que passe sem lembrarmos de você e fazer dessa lembrança, luta por justiça.
Você sempre teve lado bem definido no jogo do sistema. Escolheu o socialismo, o anti racismo, a luta contra o patriarcado e a LGBTfobia. Escolheu os debaixo e tava no corre da construção de um mundo novo, livre de opressões. Denunciou sem dó a intervenção militar no Rio de Janeiro e o genocídio em curso da juventude negra nas periferias. Defendeu os direitos humanos com unhas e dentes. Compôs as fileiras dos atos de rua contra o golpe e a reforma da previdência de Michel Temer. Propôs Projetos de Lei que buscavam avançar nas políticas públicas para mulheres, mães, negras e periféricas, que, assim como você, experienciam as contradições do nosso cotidiano. Fez política de nós para nós.
Hoje, 2 anos após seu assassinato, o cenário no Brasil e no mundo parece piorar. Bolsonaro ganhou as eleições em 2018 e, aqui no Rio, Crivella e Witzel também. A política de morte fantasiada de segurança pública parece ainda mais legitimada e, para a crise econômica que assola o mundo e segue sem demonstrar melhora, o andar de cima só sabe apresentar a destruição dos nossos direitos como solução. Aprovaram a reforma da previdência e agora querem aprofundar ainda mais a desigualdade no pagamento dos impostos, cobrando dos que têm menos ao invés de cobrar os que têm mais
.

Da educação cortaram mais de 20% do orçamento no ano passado. Nós fizemos o inferno na vida deles, fomos milhares nas ruas com o que chamamos de “Tsunami da educação”. Eles recuaram uma parte, mas seguem perseguindo nossa autonomia universitária, sucateando nossas pesquisas, propondo projetos com caráter privatizante e tentando militarizar nossas escolas. A nossa frágil saúde agora terá de se enfrentar com a pandemia do Coronavírus e sabemos que no Brasil quem morre tem cor e classe. Lembra da quantidade de atos que fizemos em 2016 para denunciar a Emenda Constitucional do teto de gastos nos serviços públicos? Pois é, agora, mais do que nunca precisamos revertê-la e investir no SUS se quisermos que nosso povo sobreviva.

Mais de 700 dias se passaram e a gente ainda não sabe quem mandou matar você. Acharam quem puxou o gatilho mas não quem mandou matar e nem o porque. Não nos interessa histórias contadas pela metade, exigimos uma investigação séria, consistente e completa! A federalização do caso não nos serve, Moro não vai pôr as mãos nessa investigação. Preta, prometo que vamos até às últimas consequências e não vamos parar enquanto a Polícia Civil do Rio não descobrir quem mandou te assassinar.

Como disse no começo você é gigante. Falo “é” no presente mesmo, porque se eles acharam que iam interromper sua caminhada atirando contra seu carro naquele dia 14, se enganaram: agora tem milhares de outros pés cursando o mesmo percurso. Você inspirou gente em cada canto desse mundo e nos deixou com saudade, com ódio e com vontade. Saudade do seu sorriso e da sua força. Ódio pra descobrir quem mandou fazer isso contigo e vontade para continuar suas lutas, de ecoar sua voz.
Muitas ruas hoje levam seu nome, praças, escolas, pré vestibulares populares. Muitos jovens se jogaram na luta organizada inspirados em você. Muitas mulheres negras se fortaleceram conhecendo sua história. Dizem por aí que você virou semente e brotou em cada canto da cidade – e é verdade. Levaremos o seu legado até que nenhuma de nós nunca mais seja interrompida.

*Maria Clara Delmonte é estudante de Gestão Pública pela UFRJ e Diretora de Direitos Humanos da União Nacional dos Estudantes.

Compartilhar: