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Feministas dentro e fora de campo: estudantes prestigiam Copa Feminina

06/06/2019 às 15:20, por Cristiane Tada e Renata Bars .


Universitárias estão organizando a torcida para a seleção feminina de futebol que estreia neste domingo contra a Jamaica 

A Copa Feminina de Futebol começa nesta sexta-feira (07/6) na França.

O time do Brasil estreia no domingo (9/6) contra a seleção da Jamaica e será a primeira vez que um canal de televisão brasileiro – a Rede Globo- vai transmitir o mundial.

Pelas universidades Brasil afora as mulheres estudantes tem unido a militância do movimento estudantil e o feminismo para organizar transmissões que vão mostrar o talento de Marta e suas companheiras.

Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) o mesmo telão que reuniu estudantes na Praça Cívica perto da reitoria na Copa Masculina agora vai exibir todo o talento dos dribles femininos.

Monica Dominato Cury, jornalista e integrante da Marcha Mundial das Mulheres é uma das organizadoras da iniciativa junto do DCE da UFJF. Ela conta que joga bola desde criança, e que na cidade existem muitas jogadoras, algumas já estiveram até na seleção brasileira sub 20. Foi a partir desse contato que eles conseguiram um vídeo com a melhor jogadora do mundo convidando o povo juiz-forano para prestigiar o mundial.

“Como conseguimos esse vídeo da Marta aparecemos bastante, então acho que vai bombar aqui. E a ideia não é só fazer um evento de lazer não, é um evento feminista mesmo, para a gente lembrar que as mulheres recebem menos que os homens inclusive no futebol, que tem muito menos apoio, que sofre um preconceito gigante”, afirma.

Após o jogo haverá uma roda de conversa com as mulheres da ‘pelada’, tanto as jovens quanto as mais velhas para falar sobre suas experiências, empecilhos, e apoios na prática do esporte.

Em Belo Horizonte o Núcleo Universitário da Marcha Mundial das Mulheres está organizando a transmissão ao vivo do primeiro jogo do Brasil na Casa Socialista. A estudante de administração pública da Fundação João Pinheiro, Letícia Peret, explica que a transmissão é aberta para todos homens e mulheres, mas o machismo e a intolerância terão a entrada proibida.

“Entendemos que o esporte principalmente quando se trata do futebol não enxerga as mulheres que atuam, por isso nosso objetivo é tornar o futebol feminino um assunto, que as pessoas assistam, valorizem, enxerguem como as nossas jogadoras são boas e que temos tudo para ter sucesso na disputa”, disse.

Em Recife na Universidade de Pernambuco a transmissão será no DA de Educação Física.

Futebol feminino como resistência e prática política

Beatriz Neves de Oliveira, estudante de Ciências Biológicas da Unifesp lembra que o machismo quando ela era mais nova existia até vindo dos professores de educação física.

“No ensino médio eu só eu jogava bola com os meninos. Nenhuma menina se sentia à vontade para jogar. Tinha toda aquela questão de não vou jogar com os meninos porque eles podem fazer alguma coisa comigo, me machucar, me encoxar… E se jogam, as pessoas chamam de ‘maria-homem’. De certa forma se você é menina e você joga na escola, você sofre bullying. No meio universitário é mais fácil, mas nem tanto porque tem muito mais campeonatos masculinos do que femininos”, contou.

Para ela o futebol é sim uma pauta política, assim como quase todas as questões que envolvem o esporte feminino. “O futebol já foi um esporte proibido para as mulheres, a gente teve que conquistar esse direito. Então é uma questão política pelo fato de a gente ter conseguido esse direito e pelo fato de estarmos lutando por coisas que no mundo do esporte masculino já são comuns”, afirma. Beatriz explica que um exemplo disso é a transmissão da Copa do Mundo de Futebol Feminino pela primeira vez em tv aberta. “É uma coisa que já era para acontecer normalmente, e não acontece num país em que futebol é comum. É um meio de luta também por conquista das mulheres, mais um dos vários”.

Laleska Santos, estudante de Educação Física da UPE, é o que podemos chamar de militante do futebol. Torcedora do Náutico, integrante de um grupo de torcida de esquerda chamado Brigada Popular Alvirrubra que logo formará uma torcida feminina do Náutico. Ela ainda participa do ”Artilheiras”, um movimento nacional que visa estimular a torcida do futebol feminino no país.

Ela destacou que o feminismo tem tomado grande proporção e com isso as mulheres têm tido cada vez mais consciência do seu papel de protagonismo, seja dentro de casa, no campo do trabalho e o futebol é reflexo da sociedade então isso acaba também influenciando as práticas esportivas. “As mulheres passaram muito tempo proibidas de jogar no Brasil e hoje começam a ocupar esses espaços, seja dentro das quatro linhas, na arbitragem, na parte técnica, na arquibancada. Isso não veio à toa, veio com muita luta. Recentemente foi aprovado que para estar na série A os clubes tem que ter um time feminino profissional e isso obrigou os clubes a investir mais no futebol feminino, a dar condição das mulheres praticarem o esporte”, ressaltou.

Feminismo para combater das diferenças colossais

Laleska lembrou de que apesar do Brasil ter a melhor jogadora da história, que já levou a taça de campeã do mundo seis vezes, a maioria das mulheres jogam futebol de forma amadora e não recebem nenhum tipo de apoio.  Para Beatriz isso também é um reflexo da audiência. “As pessoas acham que futebol feminino é chato, que é lento. As pessoas não sabem como o futebol feminino é bonito, como tem drible, tem golaço. As pessoas não sabem por que não tem o hábito de assistir por preconceito. Acho que temos de criar o hábito de assistir”, afirmou.

Por isso as iniciativas de dar visibilidade a Copa feminina são tão importantes. A jornalista Mônica acredita que o momento histórico está muito propício, porque as mulheres estão se empoderando muito e tem proporcionado todo esse clima feminista para a Copa do Mundo.

Ela também defendeu que a universidade é um lugar essencial para fomentar esse tipo de discussão. “Porque jogar futebol é tão difícil para as mulheres, porque a Marta teve que brigar com a família para jogar bola enquanto o Neymar desde pequeno foi incentivado, porque lá dentro mesmo da universidade os meninos tem muito mais apoio ao esporte”, questionou.

Os números mostram ainda uma desigualdade descomunal na remuneração entre um sexo e outro. O valor da premiação distribuída pela Fifa às 24 seleções que vão participar da Copa Feminina é de 30 milhões de dólares, enquanto o distribuído na Copa da Rússia o ano passado foi de 400 milhões de dólares.

A comparação entre os salários entre os nossos maiores craques em cada categoria não é nada mais justa. Marta tem ganho 143 vezes menos que o astro do PSG. Totalizando tudo que ele ganha em um ano, a seis vezes melhor do mundo recebe 269 vezes menos. “ Ou seja, não é por uma diferençazinha que estamos brigando”, finalizou Monica.

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