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Conheça o novo presidente da UNE, o goiano Iago Montalvão

14/07/2019 às 23:10, por Cristiane Tada.


Foto: Karla Boughoff/Cuca da UNE

Conterrâneo e sucessor de Honestino Guimarães e Aldo Arantes, estudante de economia da USP acredita em uma visão humanista sobre os números 

Para o novo presidente da UNE, o cargo é novidade, mas o engajamento, esse vem de longe.

Iago Montalvão é goiano, tem 26 anos e estuda Economia na USP em São Paulo. Foi eleito neste 57º Congresso da UNE que terminou neste domingo (14) em Brasília em um dos fóruns mais representativos da história da entidade com 4053 votos, 70% do total, pela chapa Tsunami da Educação.

Desde o Grêmio do Colégio Aplicação, escola pública da Universidade Federal de Goiás em Goiânia onde cumpriu toda sua formação escolar, Iago sempre esteve na militância.

“Eu sempre fui muito agitado, sempre quis participar de tudo, procurando sempre algo para fazer, quando eu estou parado eu me sinto incomodado”.

Tudo isso sem repetir nenhum curso, com boas notas, com tempo para leitura de quadrinhos a Darcy Ribeiro, para assistir os jogos do vasco e jogar videogame. Do textão e da zoeira, fã de Emicida e do sertanejo característico da sua terra natal, Iago diz que sempre foi um “cara amplo em tudo”.

Foto: Karla Boughoff/Cuca da UNE

Cotista de escola pública na UFG onde cursou 3 anos de história, cotista na USP atualmente, ele reconhece a oportunidade de estudar nas melhores universidades do país como fruto de uma luta do movimento estudantil. E reconhece: “eu sei que sou um privilegiado, para quem é de Goiás nunca foi um horizonte estudar na USP. A minha luta é para que todo estudante possa ter acesso a um ensino de qualidade assim como eu tive”.

Iago chega à presidência depois de três gestões femininas consecutivas de Vic Barros, Carina Vitral e Marianna Dias. “ Foram grandes mulheres e fizeram grandes gestões, espero estar à altura.  Só aumenta a minha responsabilidade que é de não só fazer a luta cotidiana, mas também entender qual é a importância dessa representatividade, reconhecer esse processo e ser um soldado nessa luta, ouvindo as pessoas excluídas historicamente dos espaços de poder”.

Foto: Karla Boughoff/Cuca da UNE

Fé na organização e dois goianos como inspiração

Iago acredita que cresceu no movimento estudantil como um bom executor de tarefas e no diálogo. A presidência da UNE, ele afirma que nunca foi um objetivo, mas sim mais uma tarefa que lhe foi confiada por um coletivo “não foi uma ambição, foi uma missão que aceito com a melhor dedicação possível” .

E completa: “Eu sempre fui disciplinado e muito dedicado a cumprir com os meus deveres, mas sobretudo sempre fui muito convencido. Acho que quando você se convence de que algo é importante você tem toda a disposição do mundo de fazer o que é necessário, e eu sempre tive”.

Foto: Yuri Salvador

E dessa forma que ele quer administrar a instituição que representa mais de 8 milhões de estudantes do ensino superior em um período de ameaça a universidade pública e gratuita: construindo consensos e buscando saída para as divergências.

Para ele o ambiente atual dentro da entidade está propício para as concordâncias, que foram construídas nesse último período e que precisam ser potencializadoras de mobilização. “Essa tem que ser a nossa missão: estar concentrado da pauta da luta pelos direitos e pela educação. Porque aí você pega toda a diversidade da nossa base e foca em uma luta. O movimento estudantil quando ele está unificado em uma batalha é perigoso”.

Foto: Karla Boughoff/Cuca da UNE

A esperança do novo presidente da UNE é que as pessoas cada vez mais tenham o movimento estudantil como instrumento de transformação social.

“Desde de quando eu fui para a minha primeira manifestação eu sempre acreditei que é possível mudar a sociedade quando a gente se movimenta, quando a gente se organiza conseguimos transformar a nossa realidade e a dos outros”, afirma.

Iago ressalta ainda que para que ele possa dar sua contribuição na maior entidade do movimento social hoje é preciso honrar todos os lutadores e as lutas que vieram antes.

“A UNE dá oportunidade aos jovens de sonharem, porque construiu lutas em outros momentos que possibilitaram que a gente conquistasse condições para que estudantes de escolas públicas, negros, pardos, indígenas que antes não sonhavam com estes espaços no ensino superior e hoje podem sonhar. E eu digo isso com muito orgulho e tranquilidade, porque eu ingressei na USP pelas cotas porque eu sei que se não fossem as cotas eu não conseguiria”.

E destaca dois goianos ex-presidentes da UNE que sempre o inspiraram na organização: ‘’Aldo Arantes que defendeu a democracia da década de 60, as reformas de base, a reforma universitária, e Honestino Guimarães, presidente da entidade em um dos nossos piores momentos perseguido e assassinado em 72”.

É de humanas ou de Exatas?

Iago iniciou no ensino superior no curso de história, graduação que abraçou devido ao interesse por arqueologia. Com o passar do tempo começou a entender o curso como uma ferramenta para as pessoas pensarem como a sociedade funciona, projetar o futuro, passar a questionar os mecanismos da sociedade.

Depois de três anos de história divididos entre a UFG e UnB ele viu na USP uma oportunidade de expandir o conhecimento em uma área bem diferente, a Economia.

“Adoro história, quero terminar um dia, mas eu estava diante de uma oportunidade única que talvez não se repetisse. Falta no país uma opinião elaborada de economistas no campo da esquerda, progressista, e penso que posso contribuir nessa questão, ser uma pessoa que possa travar o debate e contrapor o status quo, o mainstream da economia, o debate raso que os jornalões e comentaristas de grandes meios de comunicação impõe como um discurso complicado que ninguém entende”.

Foto: Karla Boughoff/Cuca da UNE

 

Na FEA, uma universidade de tradição liberal e conservadora, bem como uma das mais elitistas do Brasil, ele conta que se surpreendeu com a opinião estudantil que contrapõe o discurso vigente e a condição de repúdio a política de cortes de Bolsonaro.

“Temos aqui o CAVC [entidade que representa os estudantes da FEA], um dos CAs mais tradicionais e históricos do movimento estudantil, que teve muitos estudantes perseguidos pela ditadura, e tem um posicionamento muito firme na defesa de um projeto mais popular de educação, da própria economia, que contrapõe com firmeza o Ministro da Educação Abraham Weintraub, que foi estudante da FEA e foi declarado persona non grata da universidade”, explica.

E se diverte: “Na FEA a gente brinca que economia não é nem de humanas, nem de exatas”.

Iago afirma que no curso aprendeu que embora os economistas mais ortodoxos digam que a economia política foi superada, ele acredita que ela precisa ser política, mas reconhece  que este talvez seja um debate muito amplo para quem ainda está no início da graduação.

Foto: Karla Boughoff/Cuca da UNE

“O sistema capitalista tem um pensamento dominante que eles reproduzem como se aquilo ali fosse natural estabelecido e não possa ser mudado”.

Sobre a política econômica de Bolsonaro em sua análise ela é importada de outros países que não tem a mesma realidade do Brasil, e que isso certamente vai quebrar ainda mais o  país, sobretudo para o lado dos pobres.

“É um programa econômico que pensa pelo ponto de vista do equilíbrio fiscal, da solução dos problemas econômicos, mas não pensa do ponto de vista da solução dos problemas humanos. O ser humano/emprego no programa liberal é só mais uma variável que tem a ver como se você vai ou não aumentar o déficit fiscal ou o nível de produtividade, é apenas uma variável matemática no programa deles”.

E qual a saída?

Para o novo presidente da UNE, a entidade de 82 anos tem todos os mecanismos e pedigree para engajar e organizar uma resistência na sociedade por meio da pauta da educação.

“Mostramos isso nos dias 15 e 30M. As manifestações que paralisaram todos os estados do país só aconteceram porque na véspera diversas assembleias estudantis planejaram os atos em universidades de todo o Brasil. A defesa da educação é uma pauta que reverbera na sociedade e é com organização que vamos mudar os rumos dos retrocessos”.

Foto: Yuri Salvador

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