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O coração mineiro desaguado na lama: um mês do crime de Brumadinho

Diretora da Cultura da UNE, Dani Rebelo, lembra da tragédia na barragem da Vale e defende fiscalização popular para áreas de risco

 

“Liga a TV, vê no jornal, acharam cem! Saiu a lista! Procura o nome, não está nela

Lá se vai meu filho, meu pai, minha mãe, minha tia, minha avó, minha terra.. meu coração

Uma parte dele se vai com o sofrimento de cada mãe que olha a todo instante a tela do telefone, que ouve ele tocar sozinho

Abre a conversa, fecha a conversa

Que se levanta e corre com o barulho do vento que bate na porta, quando vê que tá na hora do menino chegar em casa

O coração da gente se vai com cada pai que a lama levou o filho pra longe

Com cada lama que guarda o filho, a 10 metros debaixo de terra, pro pai não enterrar

Oh meu pai, padroeiro da minha terra, Minas Gerais, não nos desampare não, meu sinhô

tenha piedade dessa gente

daquele que tem a vida

roubada

soterrada

vendida

em troca do dinheiro vivo, no bolso do outro

já faz um tempo que Drummond avisava

O Rio é doce, A Vale Amarga

Estão dizendo por aí que o poeta profetizava

Mas é que a tragédia já tava dada, e o coração mineiro não se calava”

 

31 dias, 1 mês, 176 mortos 134 desaparecidos.

Drummond escreveu que o maior trem do mundo, puxado por cinco locomotivas a óleo diesel, levaria seu tempo, sua infância, sua vida. Esses trens, lotados de minério de ferro na sua cidade de Itabira, eram comandados por homens que viviam e ainda vivem sob a lógica maior do consumo: quando há dinheiro, o crime compensa.

O crime não começou em Mariana, nem irá terminar em Brumadinho. A relação do estado de Minas Gerais com a mineração existe há mais de 400 anos, quando as primeiras expedições vieram em busca de metais preciosos. Para além de econômica, essa relação também é ideológica, permeada na mentalidade de um discurso de gerações e gerações, de dependência, medo e apropriação.

O primeiro grande desabamento que se tem registro aconteceu na cidade de Itabirito, em 1844, quando dezenas de escravos morreram afogados e ficaram soterrados na Mina de Cata Branca, pertencente a companhia britânica “The Brazilian Company”. Conta-se que dias depois ainda se ouvia o gemido de vítimas presas nos escombros, e com a falta de serviços de socorro, inundaram a mina para os que as pessoas presas morressem mais rápido em vez de gradativamente por condições inanes.

Um século depois, em  junho de 1942, nasce por uma ordem nacionalista em meio a Segunda Guerra a companhia “Vale do Rio Doce”, organizada para impulsionar a exploração das riquezas minerais do subsolo brasileiro, que até então era feito por uma empresa estrangeira. Há 22 anos, a estatal criada com recursos do Tesouro Nacional foi leiloada por R$ 3,3 bilhões, quando somente as suas reservas minerais eram calculadas em mais de R$ 100 bilhões à época.  Do lado de dentro da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro acontecia a “guerra das liminares”, na tentativa de impedir e concluir a venda. Do lado de fora era instaurado um campo de guerra entre manifestantes que lutavam pela não privatização, e a polícia. O resultado deste dia foram 33 pessoas feridas, e a privatização da Vale.

Em 2003, a Vale apresentou o maior lucro líquido de sua história: R$ 4,5 bilhões, recuperando em um ano o valor pago no leilão de privatização, tendo o valor da empresa superado a barreira dos US$ 100 bilhões.

Começamos aqui uma retrospectiva de dois lados, dos anos mais ricos das empresas de mineração brasileiras e os anos em que mais ocorreram crimes ambientais no estado de Minas Gerais.

Em Março do mesmo ano da maior renda da Vale, ocorreu o vazamento de uma barragem da Indústria Cataguases de papel, em Cataguazes, MG, que resultou em 1 bilhão de litros de uma lama negra. Composta por sódio, chumbo, enxofre, sulfeto de sódio e outros materiais, foi pra mais de 40 municípios e afetou a distribuição de água de mais de 700 mil pessoas.

Em Março de 2006, 400 milhões de litros de rejeitos de barragem da Rio Pomba Mineração foram vazados na cidade de Miraí (MG). A mancha de lama alcançou 70 km de extensão, afetando o abastecimento de água de toda a região. O vazamento causou destruição de ecossistemas ribeirinhos, eliminação de fauna aquática, inundação de áreas de pastagens e alteração da qualidade das águas de córregos. Novamente, um ano depois, o rompimento de duas barragens pertencentes a mesma mineradora provocou o vazamento de pelo menos 2 milhões de metros cúbicos de lama.  30% da população da cidade ficou desalojada e a multa da mineradora foi reduzida em 80%.

Em Setembro de 2014 é rompida a barragem da Herculano Mineração, soterrando trabalhadores em Itabirito (MG). A mineradora foi avisada por diversas vezes do risco do rompimento, inclusive 14 dias antes do deslizamento, por um dos trabalhadores que morreu soterrado. Adilson Batista, 43 anos, falou para a família que iria morrer trabalhando. Seis cursos d’água foram afetados, além da perda irreversível para flora, e prejuízo para fauna. Três pessoas morreram.

Em Novembro de 2015, o equivalente a 25 mil piscinas olímpicas de lama foram despejadas  – 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro foram liberados – e 12 segundos foi o tempo necessário para o  maior vazamento de rejeitos de minério, que veio da barragem do Fundão, da mineradora “Vale” devastar o distrito de Mariana, Bento Rodrigues (MG). 39 cidades foram afetadas pela lama – 11 toneladas de peixes foram mortos. Mais de 360 famílias foram desabrigadas, 19 pessoas morreram. A lama chegou ao Rio Doce, que abastece 230 municípios. Mais de 1 milhão de pessoas foram impactadas. No Brasil, ainda não há lei que projeta pessoas atingidas. Após 3 anos, ninguém foi preso, nenhuma indenização foi paga e nenhuma casa foi construída.

Chegamos em 24 de janeiro de 2019, data marcada pelo maior crime trabalhista que se há registro na história do Brasil. Há exatamente um mês, o rompimento da barragem 1 da Mina do Córrego do Feijão, pertencente à Mineradora “Vale”, deixou mais de 300 vítimas em Brumadinho (MG). Com um volume estimado de 11,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos, a lama soterrou a área operacional da mina; a área administrativa, onde ficavam escritórios e o refeitório; uma pousada; o bairro Parque da Cachoeira, casas e o Rio Paraopeba. Segundo o Corpo de Bombeiros local, 125 hectares de florestas foram atingidos. Há um mês, bombeiros se levantam para procurar corpos das vítimas e pedaços delas soterrados na lama. Há um mês, familiares sofrem a dor de ter como esperança ao menos um enterro digno aos entes desaparecidos. Segundo a “Vale”, naquele dia, trabalhavam no complexo cerca de 600 pessoas, entre funcionários da empresa e terceirizados. Até hoje, 179 corpos foram encontrados e identificados e 131 pessoas continuam desaparecidas.  Minas Gerais tem 435 barragens e, de acordo com o superintendente do Ibama no Estado, Júlio Grilo, nenhuma é totalmente segura¹. 

Em 2016 foi criado por jornalistas, sociólogos, biólogos, geógrafos, administradores e ambientalistas a “Associação dos Observadores do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural de Minas Gerais”. Sua criação surgiu após  o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, quando perceberam em meio à aquela miscelânea números e letras, leis e dados, a necessidade de traduzir e destrinchar as informações para a população por meio direto da comunicação. Assim, como sua primeira ação, a Associação propôs a criação do Lei.A,  uma plataforma digital voltada para a análise e o monitoramento das legislações e dados ambientais georreferenciados, que permite novas formas de observar, decodificar e ampliar o entendimento sobre as questões ambientais em Minas Gerais.

Para Leonardo Ivo, presidente da associação e especialista em gestão ambiental, o setor produtivo, os órgãos públicos, todos eles tem assessores que acompanham todos os dias leis e projetos, e a sociedade civil não. “A associação se coloca nesse lugar, tentando fazer uma negociação -que é o que deveria existir com o equilíbrio dos poderes -,  com a sociedade civil atuando.”

Num país onde o presidente da república diz que existe “indústria de multa” às mineradoras, e o presidente de uma das maiores empresas de mineração do mundo, começa sua gestão com a campanha “Mariana nunca mais” e no meio dela entrega uma tragédia dobrada, cabe a nós a grande responsabilidade de amplitude de um direito básico, que é o da comunicação. Já é dado hoje quem se ganha apenas no embate, e não pode haver motivos para dizer que não há discussão possível.  A luta pela garantia de direitos e dignidade, perpassa pela munição de sabedoria, informação e conhecimento de toda a população.

Acompanhe o trabalho da Lei.A e monitore o cumprimento da legislação.

“O maior trem do mundo

Leva minha terra

Para a Alemanha

Leva minha terra

Para o Canadá

Leva minha terra

Para o Japão

O maior trem do mundo

Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel

Engatadas geminadas desembestadas

Leva meu tempo, minha infância, minha vida

Triturada em 163 vagões de minério e destruição

O maior trem do mundo

Transporta a coisa mínima do mundo

Meu coração itabirano

Lá vai o trem maior do mundo

Vai serpenteando, vai sumindo

E um dia, eu sei não voltará

Pois nem terra nem coração existem mais.”

Carlos Drummond de Andrade

*Dani Rebello é diretora de Cultura da União Nacional dos Estudantes. 

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