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“As reais intenções de Bolsonaro na Venezuela”

Diretora de universidades privadas da UEE-SP, Bárbara Quenca, reflete sobre envolvimento do governo brasileiro na crise do nosso país vizinho

Nosso objetivo jamais é ser surpreendido pelo inimigo e, mesmo assim, novamente estou eu aqui perplexa.

As táticas aplicadas pelo atual governo federal, sempre em “parceria” com o governo norte-americano, se mostram cada vez mais engenhosas e evoluídas em relação aos governos absolutistas impostos na história do nosso país.

Desde as eleições presidenciais de 2018, tanto os robôs quanto os eleitores assíduos do até então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro mantém o costume de criar relação entre qualquer pauta social com a crise política da Venezuela. Tal prática, inclusive, se tornou motivo de chacota entre os cidadãos com visão política social – “Mas e a Venezuela?” se tornou quase que um bordão irônico entre os eleitores da esquerda -, mas sempre me causou inquietação.

Já ao ser eleito, o presidente Jair Bolsonaro, em declarações públicas, apontou diversas sinalizações de que poderia entrar em conflito armado com a Venezuela para intervir, sem nenhuma razão política aparente, na crise política vivida no país.

Eleito em momento de crise na nossa nação e repetindo o bordão “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, era esperado – ao menos pelos seus eleitores – que a preocupação central do presidente eleito para a República Federativa do Brasil se destinasse à restauração da estabilidade política, econômica e social do nosso país, razão essa para que Jair Bolsonaro não direcionasse, logo antes de completar dois meses de governo, nosso país rumo a um conflito armado.

Mesmo assim, cá estamos nós diante de uma guerra iminente e quase inevitável. Em pouquíssimo tempo cumprindo seu mandato Bolsonaro conseguiu, não somente agravar nossa crise política e falta de confiança nas instituições públicas, como conseguiu também contrariar explicitamente seu bordão eleitoral, ao colocar uma suposta solução da crise venezuelana acima da solução das crises vividas pelo Brasil.

Três países posicionaram estrategicamente armamentos pesados em direção à Venezuela: Estados Unidos, Colômbia e Brasil. E a pergunta que não quer calar é: como estes três países conseguiram transformar um ataque descarado em uma narrativa de negação de alimentos à população venezuelana?

Armamentos a postos, toneladas de provimentos nunca antes oferecidos à população venezuelana se posicionaram nas fronteiras com o país e, de repente, diversas manifestações de cidadãos venezuelanos começam a acontecer.

Neste ponto do texto, é importante manter fresca a memória de que manifestantes brasileiros, lutando internamente pela garantia de seus direitos, dificilmente conseguem concluir suas manifestações de maneira pacífica, muitas vezes sendo oprimidas pelas autoridades locais com a justificativa da “restauração da normalidade”, ou com falsas acusações de ações radicais e de depredação de patrimônio público ou privado.

Imagine você, que se prestou a ler este texto até aqui, a minha surpresa ao ler diversas matérias veiculadas pela mídia brasileira acerca das manifestações de cidadãos venezuelanos, em território brasileiro, que realizaram diversos ataques diretos à fronteira dos dois países, sem nenhuma intervenção de qualquer autoridade brasileira.

Se antes víamos vídeos de venezuelanos sendo apedrejados por brasileiros ao atravessar a fronteira em busca de ajuda, hoje vemos os mesmos sendo utilizados como linha de frente dos ataques iniciais ao seu próprio país. Caso contrário, porque manteriam-se as autoridades brasileiras em profundo silêncio acerca destas manifestações realizadas em nosso território com consequências políticas internacionalmente desastrosas?

Desta forma fica impossível ignorar que a intenção de nosso presidente [recém]eleito Jair Bolsonaro jamais foi a de unicamente auxiliar o povo venezuelano através de suas doações “humanitárias” repentinas, justificativa essa apresentada para explicar as movimentações na fronteira.

Mais grave que enganar a todos (brasileiros, venezuelanos, e o restante dos países ao redor do globo), o governo de Jair Bolsonaro pode ter, tão logo, adquirido aval constitucional para a suspensão dos direitos e garantias fundamentais do povo brasileiro.

Isso porque a nossa Constituição Federal vigente aponta, em seu artigo 137, II, a possibilidade de ser decretado o Estado de Sítio em caso de guerra declarada contra governo estrangeiro. Para aqueles que não conhecem tal regime, o Estado de Sítio é uma medida aplicada pelo Presidente para estabelecer um Estado de Exceção em que é possível a suspensão de nossas garantias fundamentais, incluindo nosso direito de locomoção, de reunião, de sigilo de correspondência, entre outros.

Tal medida deve ser deliberada pelo Congresso Nacional, razão pela qual ainda mantenho em meu íntimo alguma esperança de escaparmos deste totalitarismo constitucional, porém não consigo convencer minha consciência de que o governo federal solicitará a decretação do Estado de Sítio sem antes avaliar e acordar suas relações com nosso parlamentares, que possivelmente serão até mesmo ser ameaçados para viabilizar a aprovação do mesmo, vide o caráter altamente militar e intolerante do conjunto do governo. Resta à população brasileira assistir ao episódio com a esperança de que tal medida jamais seja solicitada.

Por fim, após compartilhar aqui minhas maiores preocupações acerca deste conflito, me resta apelar a todo o conjunto dos movimentos sociais do Brasil para que nos mantenhamos alertas. O totalitarismo previsível deste governo avança de forma veloz e não podemos novamente ser surpreendidos, criminalizados e jogados à ilegalidade.

E a quem possa interessar, sigamos em frente. Independente das condições apresentadas.

*Bárbara Quenca é diretora de universidades privadas da UEE-SP.

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